Instituto da Tireoide e Laringe

Desistir nunca, lutar sempre. Uma história real do dia a dia.

A porta da sala do meu consultório se abre, e imediatamente adentra um novo paciente, a quem chamaremos aqui de João. Sua feição era sofrida e angustiante, sua voz rouca e soprosa dificultava sua comunicação com outras pessoas; sua respiração ruidosa denunciava uma falta de ar e dificuldade para respirar tremenda, uma situação de urgência que deveria ser resolvida de imediato.

Como de costume, realizei o exame da sua laringe (laringoscopia), que evidenciava uma obstrução quase que total da sua via aérea. Com estes dados clínicos, não poderia perder tempo. O paciente foi prontamente transferido para o hospital, onde realizamos uma traqueostomia de urgência.

Parecia ser mais um caso de câncer de laringe provocado pelo consumo de tabaco e excesso de bebida alcoólica. O que nos chama atenção neste caso é a força e a determinação do referido cliente em resolver tamanho infortúnio provocado por suas próprias escolhas. Qualquer pessoa pode ter câncer de laringe, porém é mais provável surgir em pessoas que fumam ou consomem bebida alcoólica em excesso, sendo ainda maior se a pessoa fizer as duas coisas.

O senhor João era um sujeito parrudo, destes pecuaristas acostumados a desbravar as dificuldades do cerrado brasileiro. Conhecia como ninguém as técnicas de nutrição dos animais (gado Nelore era sua preferência), administrava vacinas e medicamentos e implementava com maestria os programas de reprodução do seu plantel. “Quem engorda o boi é o olho do dono”, dizia quase como um sermão religioso, e entre uma tarefa e outra, o velho cigarro sempre o acompanhava na labuta do dia a dia.

Naquela ocasião em que foi atendido no meu consultório, o senhor João só queria voltar a falar, comer e respirar sem dificuldades. A presença marcante da traqueostomia em seu pescoço o entristecia, parecia sentenciar-lhe a uma vida sem voz. Sem contar que o referido enfermo se alimentava por meio de sonda, pois não conseguia se alimentar pela boca há vários meses, e aquele seu prato preferido (galinhada com pequi) estava presente apenas nos seus pensamentos. Ficar doente de uma enfermidade mortal sempre foi seu pavor.

Nesta hora, o velho cigarro foi largado em definitivo, e sua esposa, sua companheira real da vida (pessoa divina), passou a ser ainda mais o seu amparo e arrimo de toda esta situação. Após seu diagnóstico e já respirando sem padecimento com auxílio da traqueostomia, conversamos sobre as possibilidades de tratamento para sua doença. Lembro-me que foi uma consulta demorada, regada de muita emoção e confiança de ambas as partes.

— Senhor João, diante do seu caso clínico, proponho a realização de uma cirurgia radical (Laringectomia Total) com a retirada de toda sua ‘caixinha da voz’, com posterior colocação de uma prótese vocal para sua reabilitação e reconstrução da sua faringe (região por onde passam os alimentos), para que o senhor possa voltar a se alimentar normalmente sem uso da sonda – disse ao combalido paciente.

O senhor João, ao escutar meus argumentos terapêuticos, percebeu que poderia voltar a falar e a deglutir sem a maldita moléstia. Seu semblante logo modificou; suas esperanças pareciam ter sido multiplicadas pelo número de cigarros que consumia diariamente. Nestas horas, sempre falo que o sucesso do tratamento é diretamente proporcional à relação criada entre o médico e o paciente.

A cirurgia foi demorada e transcorreu sem intercorrências. Já nas primeiras horas do seu pós-operatório, o guerreiro João erguia seu polegar positivamente, como querendo afirmar que a primeira etapa fora vencida. Durante algumas semanas, o senhor João mantinha regularmente seus retornos no meu consultório, e sua evolução clínica satisfatória era bem evidente. Lembro-me que quando começamos a trabalhar com a FONOTERAPIA, para emissão vocal com a nova prótese que fora implantada, a primeira palavra emitida pelo senhor João foi o nome da sua esposa, seguida da palavra GRATIDÃO.

Bom, agora faltava o teste final, que era ingerir aquela refeição preferida. Faltavam poucos dias para seu retorno à terra natal, e então resolvemos fazer-lhe uma grata surpresa. Todos os profissionais de saúde que participaram da sua cirurgia e do seu tratamento no pós-operatório se reuniram em um restaurante de comidas típicas regionais e, juntos com o senhor João, degustaram uma deliciosa GALINHADA COM PEQUI, que na verdade foi a sua primeira refeição após a cirurgia.

A satisfação de vê-lo comer sua refeição preferida, o sorriso estampado em seu rosto e as lágrimas de gratidão me fizeram recordar de uma célebre frase do jargão médico: “Desistir nunca, lutar sempre”.

Dr. Francisco Amorim   CRM 14221
Cirurgião de Cabeça e Pescoço
Diretor Técnico do Instituto da Tireoide & Laringe

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